quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Brasil - Quanto vale um rosto


Thaís Vidal

"É tão bom ver a cara das pessoas numa tela de cinema, filmadas com tanto interesse". Essa é a descrição mais precisa para o programa Quanto vale um rosto, que reuniu Ensaio de Cinema , de Allan Ribeiro (RJ, 2009), Cynthia, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori (SP, 2010) e Permanências , de Ricardo Alves Junior (MG, 2010). A primeira exibição do bloco aconteceu ontem, no Cinema São Luiz.

Em Ensaio de Cinema (foto), a feitura de uma saia é elemento de coesão entre dois homens a quem a janela é um mundo fora deles e a quem as referências ao cinema mundial fazem construir uma obra em que a câmera devagar vai buscar Barbot, um corpo que dança, e se liberta. Dois homens, já mais velhos, ensaiam um filme, ao qual nomeiam Dança de Barbot, como referência a Dança dos Vampiros de Roman Polanski (Inglaterra, 1967). Por ser ensaio, não há câmera, mas sim uma interpretação de sua existência, acompanhada pela batida de orixás que é suporte para a interpretação do dançante. É um filme do ensaio de um filme, a busca da profundidade que há além do corpo, dos gestos, unidos ao que se pensa e se diz do movimento, uma profundidade existente além da janela que vê de Santa Tereza o Rio de Janeiro.

Com Cynthia, Toledo e Gregori trazem a história de uma moça que se diz "dançarina por paixão e manicure por conveniência" e que precisa desperdiçar seu desejo com homens que pagam pelos seus serviços. De dia, manicure, e à noite dançarina numa casa noturna. É interessante ver as olheiras da manicure contrastando com a beleza do rosto e do corpo que dança e atrai olhares masculinos. Um filme sobre um mundo não tão marginal da prostituição, mas também secreto, também sofrido, e que aniquila sonhos. Em uma narrativa leve, o filme mostra a dupla vida e tenta mostrar a busca pelo sonho, que na verdade, termina por não ficar muito clara na narrativa, mas que pode ser percebida se o espectador debruçar um olhar reflexivo sobre as imagens e as falas da moça.

Finalizando a seção, um filme que não poderia ter outro nome, Permanências. Na narrativa, tudo permanece, a câmera no mesmo plano por minutos, as pessoas que vivem num velho edifício, os desgastes, as lembranças, os vícios. O que não permanece é o tempo, ele passa e carrega consigo a juventude, as companhias. Olhar cada personagem naquele filme é refletir sobre suas existências e relações com um espaço físico deteriorado, que como afirmou o diretor, é um edifício que existe no centro de Belo Horizonte há trinta anos e representa uma falência do modernismo. Apesar de trazer uma reflexão sobre certo constrangimento do próprio silêncio, ela não é tão clara à primeira vista, e o filme pode enfadar porque os planos demoram mais que o necessário. Em algumas cenas, o espectador praticamente fuma um cigarro inteiro com o personagem e isso pode até ter sentido, mas não fica claro.

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