sábado, 20 de novembro de 2010

Brasil 8 - Experiências em Coletividade

André Valença

O programa Experiências em Coletividade (Brasil 8) trouxe uma seleção muito condizente com o nome que leva, visto que todos os filmes tiveram alguma correlação com um grupo social. A exibição começou com Novo Ano (2010), de Louise Botkay Courcier e Valérie Pico. O filme é uma busca por pureza e traz imagens leves ou de conteúdo alegre, às vezes meio profanas. Ao fundo, um grupo de pessoas repetindo, como um mantra: “vida, saúde, felicidade”; aspirações comuns de fim de ano.

Ao seguir, Alguém Tem que Honrar essa Derrota! (Leonardo Esteves, 2009) encantou e entreteve o público pela sua não-ortodoxia: o filme foi rodado sem roteiro no Carnaval do Rio de Janeiro e, a partir das imagens que foram obtidas, o diretor construiu uma história na montagem e pôs dublagens por cima das vozes originais. Mas essas excentricidades não foram a única coisa que cativou o público, havia no filme muitas questões que faziam com que o espectador se lembrasse de outras fases do cinema. A dublagem caricata remete às chanchadas brasileiras dos anos sessenta, ou mesmo a enlatados americanos. A música frenética ao fundo, outro elemento crucial do curta, embala uma edição rápida, cheia de informações.

Já A Banda (2010), de Chico Lacerda, apela para uma edição mais discreta. Diversos planos-sequências e outros cortes menores compõem o filme. As imagens captam verdadeiros retratos de pessoas observando uma banda na praia. A atenção do espectador se dobra nelas, pois não há som algum no fundo, nem mesmo o ambiente. A ironia não poderia ser mais clara, um filme (também) sobre som, mas com ausência dele. As imagens, enfim, começam aos poucos a sugerir que se trata de uma festa do movimento gay: bandeiras com o arco-íris aparecem, grupos homossexuais dançam; tem clima de festa. A câmera acaba por captar um instante do trio onde toca uma banda com dançarinos sem camisa. Mas é só. A reação das pessoas é o mais importante.

Handebol (2010), de Anita Rocha da Silveira, segue uma tendência comum no cinema brasileiro, de curta e de longa-metragem, que é o universo adolescente, visto, por exemplo, em As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky, 2010). O filme em questão, contudo, trata o tema de forma distinta, pois não se interessa em fazer registro da adolescência de uma época, mas resgatar no público um sentimento juvenil. A forma que Anita conseguiu de trabalhá-lo assim foi transformando-o numa obra bastante sensorial. O som do filme é esmagador, as imagens parecem uma névoa da lembrança, nada daquilo é natural, ou naturalista, é um tempo vivido e que já foi; há muito tempo (mesmo que se passando na atualidade).

A chave-de-ouro que finalizou a sessão com muito glitter e extravagância foi Faço de Mim o que Quero (Sergio Oliveira e Petrônio Lorena, 2010). O filme começa com a subjetiva de um carrinho de CD pirata rodando o centro do Recife; a impressão que dá é que o filme se tratará de um épico do Brega (principalmente, para quem já sabia da participação de Kelvis Duran, Conde do Brega e João do Morro no elenco), mas logo em seguida fica claro que se trata de uma sucessão de esquetes divertidos ambientados no universo da música Brega. O curta é tecnicamente impecável, a fotografia é preocupada, os atores estão bem preparados e a montagem é inspiradora, contudo, no que sobra em, antiteticamente, profissionalismo e irreverência, falta em substância narrativa. Isto não impede, porém, de o filme cumprir o seu objetivo de registrar uma crônica do gênero musical mais popular do Recife. Há também quem achará uma depreciação, mas, claramente, se trata de um elogio. O maior destaque fica para os créditos, com dançarinos do gênero revelando a ficha técnica do filme desenhada em partes dos seus corpos. “Melhor seqüência de crédito do cinema?”, sugere Kléber Mendonça Filho, realizador, crítico de cinema e diretor artístico do Janela depois da sessão. É bem provável. De fato, uma ótima forma de fechar o programa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário