terça-feira, 16 de novembro de 2010

Brasil - Guiados por Vozes


Thais Vidal

O cinema nacional entrou em cena mais uma vez ontem com quatro curtas no programa Guiados por vozes. Abrindo a seção, o carioca Áurea, de Zeca Ferreira, que traz um panorama sensível sobre músicos da noite, numa espécie de docu-ficção contando a história de Áurea Martins, cantora de casas noturnas do Rio de Janeiro. A partir de depoimentos dela e de alguns companheiros intercalados com cenas da noite e diálogos criados, o diretor traça uma visão triste de quem vive de música, mas não é realmente reconhecido.

Dando continuidade à temática, mas não escapando de uma visão comum, presente no cinema brasileiro, de meninos negros da favela, o também carioca Raz, de André Lavaquial, traz à cena o rap e contextualiza a música como ponte para um transe espiritual. O filme não parece trazer nada de novo, mas o interessante é a transposição da ideia do diretor, originalmente de um episódio em Paris, para as ruas do Rio de Janeiro, com personagens e vivências do Brasil.

Em Ave Maria ou mãe dos sertanejos (foto), a estética e a temática não seguem a linha anterior. Com o filme baseado na montagem de imagens do sertão, e em cortes de cenas que não apresentam uma linearidade, o pernambucano Camilo Cavalcante, sugere a ideia de que a religião é a força do sertanejo. Apesar da belíssima fotografia do filme, a ligação entre as imagens não é linear, e o espectador pode deparar-se com uma série de imagens, representações de lugares-comuns do Sertão, que são estereotipados em cenas que remetem a uma ideia padrão da vida do sertanejo.

O filme que fechou a noite foi A amiga americana, de Ivo Lopes e Ricardo Pretti, que é leve, engraçado, mas que não encanta muito. A linha de raciocínio do filme vai da chegada de uma californiana, que se chama Paris, a Fortaleza ao desenvolvimento de uma amizade. Entretanto, a temática da amizade é tratada muito superficialmente, e algumas falhas como o fato de uma americana e uma brasileira se entenderem mesmo sem falarem a mesma língua, deixam o filme estranho.

Apesar de esse aspecto soar como intencional para sugerir que o entendimento entre duas pessoas é mais que a linguagem, o mecanismo não foi bem aplicado, porque em alguns momentos parece que elas sabem o que a outra fala, mesmo que uma só fale português e a outra inglês. Mas o final é o ponto que de fato destoa da linha, pois a cearense Thais parece só despertar dois anos depois para a partida de Paris, e demonstra isso tocando De repente, Califórnia de Lulu Santos: nada surpreendente.

Um comentário:

  1. Thais, gostei muito da sua critica, pois me fez ver qualidades que não haviam sido muito claras pra mim em Áurea e tambem concordeir com tudo o que você propôs nos outros curtas da noite. :D

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