sábado, 20 de novembro de 2010

Brasil 6 - Estamos Todos Juntos


Poliana Dantas
Sinestesias Sentimentais

Será que existe cor para a saudade? Cheiro para a dor? A partir da exibição da Mostra BRA 6 – “Estamos Todos Juntos”, uma das sessões mais emocionantes do Janela até agora, percebe-se que sim, que a vida em coletividade (especialmente a vida familiar, onde há a afloração e o desenvolvimento da afetividade), e os sentimentos e ligações que permeiam esse núcleo podem ser captados sob uma perspectiva penetrante, de modo a levar o espectador a viajar por suas próprias lembranças.

Lembranças simples, e na mesma proporção significantes, como o ato dolorido de se despedir de um ente querido; é o que presenciamos no curta “Ensolarado” (2010), de Ricardo Targino. O próprio título, os tons quentes da fotografia impecável, e até a movimentação da câmera em planosequência em algumas cenas, além de sugerir a imagem de um sertão mais “habitável” como qualquer outro lugar, transmite calor ao desespero e medo que a menina sentia ao ter que se separar de sua família, principalmente da sua avó. E aproveitando o tema avós, todos sabem que temos neles um grande oráculo de boas experiências, as quais eles fazem qustão de disseminar para as gerações posteriores. Mas no curta “Avós” (foto), de Michael Wahrmann, isso funciona de maneira inversa. O garoto Léo, que acabara de completar 10 anos, é o símbolo vivo da necessidade dos seus avós – judeus – de enchê-lo de presentes e comida para compensar as suas dignidades esvaziadas pela Auschwitz.

Mas memórias inesquecíveis nem sempre precisam ser (re)construídas e (re)vividas pelos mais velhos. No curta “Perto de Casa” (Sérgio Borges, 2009), por exemplo, a espontaneidade no momento de diversão de duas crianças transparece um visão livre e mágica do mundo à sua volta, desprovido de qualquer tipo de corrupção; ela apenas está ali, e para eles não dói usá-las e guardá-las.

Já em “Querida Mãe” (2009), a cineasta Patricia Cornils descarrega um profundo intimismo e sensibilidade em sua produção ao reconstruir os passos da mãe que ela nem conheceu a partir de cartas enviadas por esta a seus familiares em Recife. O depoimento de amigos, além da escolha criteriosa de locais importantes na história da mãe, como o próprio Cinema são Luiz – onde curiosamente o curta foi exibido, gerando uma metalinguagem cinematográfica quase sem querer – desperta uma inquietação em todos que assistem a ele, além da sensação nostálgica , mas gostosa, de sentir falta daquilo que não vivemos. Fechando a sessão, vemos em “Balanços e Milkshakes” (Erick Ricco / Fernando Mendes, 2009) um retrato singelo do amor de infância, daqueles que surgem em momentos aparentemente triviais e rotineiros, mas que deixam uma marca profunda na vida de qualquer um.

Existem diversas explicações históricas, filosóficas, científicas para entender o porquê desse constante desejo da humanidade de reemersão memorial, utilizando como principal veículo de escape o cinema; existe, entretanto, uma razão que possa sintetizar qualquer teoria empírica suposta: a de que nunca seremos capazes o suficiente para trabalharmos por completo com todos os sentidos das relações com o outro.

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